
A criativade e agilidade de Gardênia impressionam quem passa pela Rua Barão de Itapetininga | Fotos: Olívia Freitas
Em meio à multidão, correria, escritórios, ambulantes, homens-placa, barulho, muito barulho… características típicas de uma tarde de sábado no centro de Sampa – da São Paulo de todos os dias, andara eu e um grupo de amigos. Então avistei um pequeno conglomerado de pessoas em meio à Barão de Itapetininga. Quantas pessoas passariam por ali e nem notariam, mas um grupo de jornalistas não. Pedi para irmos até lá.
Tentei me aproximar “Com licença?!” Fui chegando com jeitinho, passando entre aqueles curiosos, mas não tão diferentes de mim, afinal todos queriam ver que diacho acontecera ali. Opa, passei! Cheguei na frente de todo mundo e me deparei com uma moça sentada no chão, com estilo largado e suja de tinta, ao seu redor alguns objetos: muitas latas de spray, algumas folhas de papel cartão, umas três molduras, um estilete e muitos rostos admirados compunham a cena.
Depois de alguns minutos eu estava igual àqueles desconhecidos do meu lado: de boca aberta. Logo percebi a agilidade e esperteza daquela moça ao pintar as telas. Ela tinha alguns quadros em exposição, desenhos belíssimos: uma noite de lua cheia nas montanhas cobertas de neve, as pirâmides do Egito, os planetas do sistema solar, entre outros. Mas notei que a tal moça não gostara de repetir desenhos, cada obra é única, mas se o cliente pedir, ela faz. Coisa de artista. E olha, estava vendendo bem, ela não parava. Cada quadro custava R$ 10 ou R$ 20 com a moldura.
Até aí tudo bem, a moça era uma artista de rua que faz quadros bonitos. Mas o diferencial dela é como faz isso. Sentada no chão debaixo do sol e sorridente, pergunta o que o cliente quer que ela desenhe, não tem medo de desafios. Quem tem medo do novo é a sociedade, poucos ousam pedir algum quadro que o curioso do lado ainda não tinha pedido. A moça, assim como toda artista, gosta de inovar, para ela, cada arte é única, impossível de fazer igual. Concentrada, ela começa: mistura as tintas em cima do papel cartão, de uma forma que só ela sabe o que vai resultar, com as pontas dos dedos ela vai dando formas, dimensões e profundidade ao desenho, para finalizar usa um pequeno estilete, e pronto!
A moça demora no máximo 10 minutos para pintar a tela, é impressionante sua rapidez e precisão. O que mais ouvi sair das bocas dos admirados é: “Nossa, como ela consegue?” e “É incrível”. De repende ela me disse: “E você, moça, o que vai querer?”. Surpresa, digo: “Quero um lobo em uma noite estrelada”. Ela replica: “É pra já!”. Em questões de minutos, já estava finalizado. Aí foi minha oportunidade de saber mais sobre ela.
Às 13h, ela recolheu suas coisas, disse que iria esperar o sol baixar. A maranhense com nome de flor, Gardênia, é acanhada com as palavras, mas sabe muito bem o que quer desde que começou a rodar o Brasilzão atrás de seu sonho: ser uma pintora reconhecida, ou pelo menos sentir prazer fazendo o que gosta.
Gardênia sempre gostou de desafios, quando estava no colégio interno, ainda na 4º série cabulava aula para admirar um artista pintar em um ateliê próximo de onde estudava. Órfã, ela decidiu que queria viver da arte e colorir a vida das pessoas. E claro, como ela adora desafios, diante da realidade não seria diferente, mas decidiu encarar a falta de apoio e desvalorização do artista de rua.
Apesar de morar em Santana do Parnaíba, Gardênia viaja por 14 cidades do Brasil para promover seu trabalho nas ruas. Em São Paulo, está há três anos, com 14 de experiência, ela já teve passagem pelo Rio de Janeiro, onde ensinou pintura para crianças da Favela Cidade de Deus, em um projeto do rapper MV Bill.

Com inspiração própria, Gardênia produz suas obras no Centro de São e sonha com apoio da Prefeitura para expor seus quadros
Por pouco a moça não teve seu direto vetado de estar ali no calçadão exibindo sua arte. O ex-prefeito Kassab quis proibir a arte livre nas ruas da cidade, mas alguns meses depois voltou atrás.
A esperança é uma força que rege o coração da maranhense, roupas desgastadas, pele queimada do sol e cabelo emaranhado, percebi que ali ela estava feliz, não só por estar fazendo o que gosta, mas também por viver de modo tão livre e ser reconhecida, nem que fosse só por aquele pequeno grupo de pessoas, que apesar de pequeno, a aplaudia com muito vigor, admiração e sinceridade.
Aos olhos da sociedade, Gardênia não possui os traços físicos mais delicados, porém, nos traços das suas telas mostra por que o nome de flor se aplica também a ela. Por quantas Gardênias você passou hoje?






