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A criativade e agilidade de Gardênia impressionam quem passa pela Rua Barão de Itapetininga | Fotos: Olívia Freitas

Em meio à multidão, correria, escritórios, ambulantes, homens-placa, barulho, muito barulho… características típicas de uma tarde de sábado no centro de Sampa – da São Paulo de todos os dias, andara eu e um grupo de amigos. Então avistei um pequeno conglomerado de pessoas em meio à Barão de Itapetininga. Quantas pessoas passariam por ali e nem notariam, mas um grupo de jornalistas não. Pedi para irmos até lá.

Tentei me aproximar “Com licença?!” Fui chegando com jeitinho, passando entre aqueles curiosos, mas não tão diferentes de mim, afinal todos queriam ver que diacho acontecera ali. Opa, passei! Cheguei na frente de todo mundo e me deparei com uma moça sentada no chão, com estilo largado e suja de tinta, ao seu redor alguns objetos: muitas latas de spray, algumas folhas de papel cartão, umas três molduras, um estilete e muitos rostos admirados compunham a cena.

Depois de alguns minutos eu estava igual àqueles desconhecidos do meu lado: de boca aberta. Logo percebi a agilidade e esperteza daquela moça ao pintar as telas. Ela tinha alguns quadros em exposição, desenhos belíssimos: uma noite de lua cheia nas montanhas cobertas de neve, as pirâmides do Egito, os planetas do sistema solar, entre outros. Mas notei que a tal moça não gostara de repetir desenhos, cada obra é única, mas se o cliente pedir, ela faz. Coisa de artista. E olha, estava vendendo bem, ela não parava. Cada quadro custava R$ 10 ou R$ 20 com a moldura.

Até aí tudo bem, a moça era uma artista de rua que faz quadros bonitos. Mas o diferencial dela é como faz isso. Sentada no chão debaixo do sol e sorridente, pergunta o que o cliente quer que ela desenhe, não tem medo de desafios. Quem tem medo do novo é a sociedade, poucos ousam pedir algum quadro que o curioso do lado ainda não tinha pedido. A moça, assim como toda artista, gosta de inovar, para ela, cada arte é única, impossível de fazer igual. Concentrada, ela começa: mistura as tintas em cima do papel cartão, de uma forma que só ela sabe o que vai resultar, com as pontas dos dedos ela vai dando formas, dimensões e profundidade ao desenho, para finalizar usa um pequeno estilete, e pronto!

Papel cartão, spray e um pequeno estilete são as armas de sobrevivência da maranhense

Papel cartão, spray e um pequeno estilete são as armas de sobrevivência da maranhense

A moça demora no máximo 10 minutos para pintar a tela, é impressionante sua rapidez e precisão. O que mais ouvi sair das bocas dos admirados é: “Nossa, como ela consegue?” e “É incrível”. De repende ela me disse: “E você, moça, o que vai querer?”. Surpresa, digo: “Quero um lobo em uma noite estrelada”. Ela replica: “É pra já!”. Em questões de minutos, já estava finalizado. Aí foi minha oportunidade de saber mais sobre ela.

Às 13h, ela recolheu suas coisas, disse que iria esperar o sol baixar. A maranhense com nome de flor, Gardênia, é acanhada com as palavras, mas sabe muito bem o que quer desde que começou a rodar o Brasilzão atrás de seu sonho: ser uma pintora reconhecida, ou pelo menos sentir prazer fazendo o que gosta.

Gardênia sempre gostou de desafios, quando estava no colégio interno, ainda na 4º série cabulava aula para admirar um artista pintar em um ateliê próximo de onde estudava. Órfã, ela decidiu que queria viver da arte e colorir a vida das pessoas. E claro, como ela adora desafios, diante da realidade não seria diferente, mas decidiu encarar a falta de apoio e desvalorização do artista de rua.

Apesar de morar em Santana do Parnaíba, Gardênia viaja por 14 cidades do Brasil para promover seu trabalho nas ruas. Em São Paulo, está há três anos, com 14 de experiência, ela já teve passagem pelo Rio de Janeiro, onde ensinou pintura para crianças da Favela Cidade de Deus, em um projeto do rapper MV Bill.

Com inspiração própria, Gardênia produz suas obras no Centro de São e sonha com apoio da Prefeitura para expor seus quadros

Com inspiração própria, Gardênia produz suas obras no Centro de São e sonha com apoio da Prefeitura para expor seus quadros

Por pouco a moça não teve seu direto vetado de estar ali no calçadão exibindo sua arte. O ex-prefeito Kassab quis proibir a arte livre nas ruas da cidade, mas alguns meses depois voltou atrás.

A esperança é uma força que rege o coração da maranhense, roupas desgastadas, pele queimada do sol e cabelo emaranhado, percebi que ali ela estava feliz, não só por estar fazendo o que gosta, mas também por viver de modo tão livre e ser reconhecida, nem que fosse só por aquele pequeno grupo de pessoas, que apesar de pequeno, a aplaudia com muito vigor, admiração e sinceridade.

Aos olhos da sociedade, Gardênia não possui os traços físicos mais delicados, porém, nos traços das suas telas mostra por que o nome de flor se aplica também a ela. Por quantas Gardênias você passou hoje?

A lei que determina as diretrizes das principais políticas públicas da cidade terá participação popular para elaboração de um plano que dê “voz” e atenda boa parte dos moradores

A revisão do Plano Diretor Estratégico traçará as metas de desenvolvimento da cidade de São Paulo para os próximos 10 anos Foto: João Paulo Brito

A revisão do Plano Diretor Estratégico traçará as metas de desenvolvimento da cidade de São Paulo para os próximos 10 anos | Foto: João Paulo Brito

A revisão do Plano Diretor Estratégico da cidade de São Paulo será feita neste ano, e os debates com a sociedade se iniciam no próximo dia 27 de abril. Na primeira fase, serão realizados dez encontros e a população pode participar apresentando propostas.

Após 10 anos de sua concessão, no governo de Marta Suplicy (PT), a lei que reúne as principais diretrizes de políticas públicas, que servem para orientar o crescimento urbanístico da cidade, será adaptada para a nova realidade da metrópole. Alguns dos pontos a serem reajustados são: habitação, moradia, mobilidade, urbanização, educação, saúde, qualidade de vida e preservação ambiental.

De acordo com a legislação, toda cidade com mais de 20 mil habitantes deve ter um Plano Diretor e a cada 10 anos ele deve ser atualizado. Esta é uma das principais metas deste início da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), que acredita que, para construir um plano melhor que o vigente, é preciso aproximar os moradores da revisão.

O vereador Nabil Bonduki (PT), um dos principais relatores do Plano Diretor de 2002, diz que a revisão deve incluir várias camadas sociais. “A lei tem que ser participativa, dar voz para ‘todos’ os segmentos da sociedade. Temos que construir um mecanismo em que ‘todos’ os cidadãos sejam ouvidos”, afirma o político. A participação popular se dará por meio de debates. Em sua maioria, os bairros serão representados por líderes comunitários e associações.

Agora é o momento que o Plano Diretor deve ser aperfeiçoado e também ser objeto de várias propostas inovadoras que determinarão as diretrizes da cidade nos próximos 10 anos. “No período em que vamos rever a lei é que a sociedade civil deve estar organizada para dizer à gestão que assume que a cidade que queremos não é a que vemos hoje. Queremos uma cidade mais sustentável e mais justa”, afirma a geógrafa e representante do Fórum Suprapartidário, Ros Mari Zenha.

Já para o Presidente da Câmara dos Vereadores, José Américo (PT), duas questões são prioridade na revisão da lei. “É importante que o Plano Diretor seja mais rigoroso na preservação do verde e dos biomas ambientais”. Outro ponto que ele destaca é a estética da cidade. “Essas duas questões chegam a ser dramáticas; se quisermos manter um pouco de verde e ar puro para nossos netos temos que agir”, afirma o político.

A revisão do Plano se dará em três fases: a primeira será uma avaliação temática participativa composta por dez encontros que começam no dia 27 deste mês; a segunda consistirá em oficinas públicas nas 31 subprefeituras para colhimento de propostas com base em discussões temáticas; e a terceira será a devolutiva à população sobre as propostas que apresentaram.

De acordo com Haddad, até agosto a lei deve ser revista. Na sequência outras leis complementares também serão revisadas, como a Lei do Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, Código de Obras, Planos Regionais Estratégicos, que são uma adaptação das diretrizes gerais do Plano Diretor à realidade de cada região e bairro.

Bonduki vê a revisão da lei como desafio de “solucionar” dois problemas: humanístico e urbano. “Nosso grande desafio para os próximos 20 anos é termos uma cidade menos desigual, oferecer um local com mais oportunidades para melhorarmos nossa qualidade de vida. O Plano Diretor é o momento para isso”, explica o vereador.

Mas o maior desafio e embate dessa discussão será alinhar quatro interesses distintos em busca de uma nova São Paulo: o do mercado imobiliário, o da Prefeitura, o dos urbanistas e o dos cidadãos. O Plano Diretor obviamente terá muitos conflitos e na discussão: “Os construtores dizem que está difícil de construir e os moradores dizem que os construtores destruíram seus bairros”, conta Bonduki.

Américo afirma que o novo Plano, em relação ao anterior, terá maior intervenção na cidade no sentido de melhorá-la. Porém, aponta que a lei atual estancou o desenvolvimento desregrado que vinha acontecendo e estabeleceu uma legislação um pouco mais dura de ocupação e de loteamentos irregulares.

Participação popular
Para Ros Mari, este é o momento da democracia participativa se fazer presente dentro da Câmara Municipal. Mas, para isso, é preciso que a sociedade civil possa fazer propostas que vão de encontro ao debate do Plano Diretor. “É um desafio muito grande. É preciso qualificar a sociedade para o debate que ela precisa participar”, afirma a geógrafa.

Ros Mari critica a falta de retorno do Plano Diretor de 2002 por parte do Executivo. Para ela, o que deu ou não certo é totalmente relevante para que o debate prossiga. “Precisamos ter uma noção mais clara dessa retrospectiva. Além de se fazer essa avalição, compete ao poder Executivo fazer oficinas de formação. Geralmente, os movimentos de cidadania têm pouca informação de conteúdo sobre o que vem a ser um Plano Diretor”, revela.

O sociólogo e representante da Rede Nossa São Paulo, organização da sociedade civil que engloba mais de 700 associações, Maurício Broinzi,  discorda de Ros Mari quanto a uma efetiva participação popular na revisão do Plano Diretor vigente. “Não tenho esperanças que terá uma grande participação popular neste processo de construção do Plano. O poder público desta gestão, por mais que tenha uma maior vontade em investir no diálogo e na participação, ainda não se preparou e se estruturou para promover um papel amplo de participação”, considera.

Para haver a efetiva participação popular, Ros Mari e Broinzi destacam pontos fundamentais como: aliança entre o Executivo e igrejas para divulgação, associações de moradores e de mais grupos capazes de provocar a mobilização da sociedade; qualificar o discurso da sociedade civil por meio de materiais impressos, explicando do se se tratam os debates, o que podem repercutir, textos claros e objetivos; usar o espaço da Câmara Municipal para oficinas sobre a revisão da lei e o Executivo deve dar retorno à população referente aos debates.

Além da obrigação do Poder Executivo, a sociedade deve pressionar para que essa participação ocorra, e cabe aos líderes de bairros e associações a divulgação da melhora forma. “Se a gestão realmente quiser promover a participação popular tem como fazer isso”, finaliza Broinzi.

Confira os locais dos debates
Sábado (27/04), das 8h às 17h
Uninove – Campus Memorial, Av. Francisco Matarazzo, 364 – Barra Funda.
Assunto da manhã: Os objetivos da revisão do Plano Diretor Estratégico e a cidade que queremos.
Assunto da tarde: Uso e ocupação do solo.

Terça-feira (30/04), das18h às 22h
Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000 – Liberdade.
Assunto: Instrumentos de política urbana.

Sábado (04/05), das 8h às 17h
Uninove – Campus Memorial, Av. Francisco Matarazzo, 364 – Barra Funda.
Assunto da manhã: Habitação.
Assunto da tarde: Meio ambiente.

Terça-feira (07/05), das18h às 22h
Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000 – Liberdade.
Assunto: Mobilidade urbana.

Quinta-feira (09/05), das 18h às 22h
Local a definir.
Assunto: Atividade com segmento dos empresários.

Sábado (11/05), das13h às 18h
Uninove – Campus Memorial, Av. Francisco Matarazzo, 364 – Barra Funda.
Assunto: Investimentos prioritários, planos regionais e planos de bairro.

Terça-feira (14/05), 18h às 22h
Local a definir.
Assunto: atividade com segmento de Ongs.

Quinta-feira (16/05), das18h às 22h
Local a definir.
Assunto: Atividade com segmento de universidades, sindicatos, conselhos de categorias e associações profissionais.

Sábado (18/05), das13h às 18h
Local a definir.
Assunto: Atividade com segmento de movimentos populares.

Sexta-feira e sábado (31/05 e 01/06), das 8h às 18h
Auditório do Anhembi – Santana.
Assunto: Conferência Municipal da Cidade de São Paulo.

Reportagem publicada originalmente no site Cmais da TV Cultura.

Repórteres que querem contar histórias de “grande fôlego” se desdobram para se adequar aos cortes de gastos das redações

Falta espaço para grande reportagem na mídia, critica Audálio Dantas

O jornalista Audálio Dantas explica os caminhos de uma grande reportagem para os estudantes do curso Descobrir São Paulo – Descobrir-se Repórter, na Câmara Municipal de São Paulo | Foto: Nivaldo Silva

Com o advento da internet, a rapidez das publicações online e a crise financeira dos veículos de comunicação a grande reportagem foi sendo empurrada da grande mídia para o livro-reportagem. É o que acredita o jornalista Audálio Dantas, aos 80 anos de idade e 59 de profissão.

“A grande reportagem não acabou, é o espaço que está cada vez menor. A notícia se transformou em espetáculo”, opina Audálio. O repórter que passou por alguns dos maiores veículos da imprensa brasileira, como as revistas Quatro Rodas, O Cruzeiro, Manchete, Realidade, Veja entre outras, relembra o papel que o programa Globo Repórter tinha no passado de fazer grandes reportagens. “O Globo Repórter não faz mais o que fazia antigamente, virou programa de curiosidades”, diz.

Audálio Dantas é um mestre do jornalismo nacional, ao lado de grandes nomes como, Alberto Dines, José Hamilton Ribeiro, Ricardo Kotscho e tantos outros. Com larga experiência, é referência na área, começou sua carreira jovem, aos 21 anos na extinta Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo) e do jornal em diante traçou uma carreira brilhante. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP) em uma fase importantíssima da redemocratização do país, quando denunciou o assassinato do jornalista Vladimir Herzog durante a Ditadura Militar.

Para fazer uma reportagem de mais “fôlego”, ou seja, mais aprofundadadas, hoje em dia o repórter tem que se desdobrar devido às outras demandas da redação e aos cortes de gastos “extras”. “O jornalista vai encontrar logo de cara uma dificuldade de não poder praticamente ir à rua. As grandes redações descobriram que fica mais barato fazer a reportagem por telefone e mais grave ainda, via internet”, crítica Audálio. “Consequentemente ninguém pergunta cara a cara, olho no olho, não tem certeza da autenticidade daquelas respostas que vão ser utilizadas na reportagem”, opina o alagoano.

Uma das possíveis saídas para o repórter que “tem algo a dizer” e quer fazer grandes reportagens com temas de relevância para sociedade é produzir durante seu pouco tempo livre, aos finais de semana e insistir com a pauta na redação. O próprio Audálio chegou a fazer isso quando trabalhava na extinta revista Realidade da Editora Abril. Além dele, o consagrado repórter da Rede Globo e líder do programa Profissão Repórter, Caco Barcellos, declarou que é a única maneira viável de contar grandes histórias na atualidade.

Para Audálio, a revista Piauí, a Folha de S.Paulo e a revista Época com Eliane Brum, são exceções de veículos com algumas grandes reportagens na imprensa de hoje. “A Eliane Brum é um exemplo maravilhoso de repórter que vai ao fundo das questões e tem um texto excelente. Hoje não se dá mais espaço para isso”, elogia Audálio. De acordo com o ranking do site Jornalistas & Cia, Eliane é a segunda jornalista mais premiada do Brasil, atrás apenas de José Hamilton Ribeiro da TV Globo.

Audálio ficou conhecido pelas grandes reportagens que fez. Suas matérias sempre ganharam repercussão e desdobramento dos casos, muitas vezes internacional. Seu texto tem uma forma única de narrar os fatos, transparecerem a realidade e a verdade, com palavras certas e precisas de uma forma humanizada que faz falta no jornalismo.

Na reportagem “Diário de uma Favelada”, o alagoano descobriu Carolina Maria de Jesus, moradora de uma comunidade da Zona Norte de São Paulo que relatava todo o cotidiano do lugar, de uma maneira brilhantemente escrita, em um diário, o que foi parar nas páginas da Folha da Manhã, ganhou livro e o noticiário internacional. Nas publicações, ele também denunciava fatos que ocorriam no país de uma forma inteligente para burlar os censores da Ditadura, como em “Doença de menino”, na qual a fome que matava centenas no Nordeste foi a pauta. Em “Nossos desalmados irmãos loucos”, Audálio denunciou as condições subumanas dos internados no extinto hospital psiquiátrico Juqueri. “Anos depois da matéria, começou uma discussão sobre a internação do doente mental. A partir daquele momento a visão sobre os manicômios no Brasil melhorou”, relembra.

Mas nem sempre o “querer” do jornalista nas grandes redações é poder. O percurso da reportagem é grande até chegar ao leitor/expectador, ela passa por muitos interesses pessoais, políticos e econômicos. “Mesmo o jornalista querendo, ele não consegue transmitir a verdade. Mas o que não pode é a notícia virar espetáculo, ela deve cumprir a função social primeiramente”, considera.

A função da reportagem e a obrigação do jornalista
O Jornalismo tem função social e um exercício permanente na sociedade: informar a verdade. Os jornalistas podem contribuir para acontecer coisas grandiosas no mundo, como a queda de um presidente ou ministro, resolução para problemas da sociedade, intervenção em investigações policiais entre outras. “Não é obrigação religiosa contar a verdade, mas é de consciência desde o momento que se assume uma profissão dessa natureza”, conta. “Se a informação não for boa, ele está traindo um dos princípios da sua formação: a verdade”, completa Audálio.

Para o atual diretor-executivo da revista Negócios da Comunicação, a internet além dos benefícios evidentes, trouxe também uma acomodação absurda dos jornalistas que sempre recorrem ao Google quando vão fazer uma reportagem. “Mas quem é a fonte, quem postou aquele texto, quem tem certeza que aquela informação é correta?”, questiona.

O segredo de uma boa entrevista é tema de vários debates entre profissionais da imprensa e tantos outros livros para jornalistas. De acordo com Audálio, o mistério está no mais simples, o repórter não pode ter a pretensão de que sabe tudo, ele tem que perguntar como não soubesse de nada, das perguntas mais simples pode sair as respostas mais surpreendentes e de extrema ajuda ao repórter.

Reportagem produzida durante o “6º curso Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter”, do Projeto Repórter do Futuro da Oboré, realizado em parceria com a Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

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Foto: SXC

A comunicação é uma “arma” que agora definitivamente está ao alcance de todos. A sensação que as mídias nos passam, é que ela aproximou novamente os indivíduos da política, ou pelo menos agora deixa essa relação nitidamente mais exposta e sensível. É a globalização da comunicação fazendo as opiniões e relações sociais ultrapassarem fronteiras com muita velocidade e para territórios cada vez mais extensos.

Conectar-se ao mundo em segundos, formar opinião, compartilhar ideias e promover revoluções. Estas são surpresas que as redes sociais estão produzindo em diversas partes do mundo. Elas tomaram proporções jamais vistas na comunicação. Essas plataformas têm uma capacidade impressionante de agitação e mobilização das massas. Alterando muitos movimentos sociais, protestos, manifestações e driblando controles do Estado e das corporações internacionais. Estamos diante de mudanças cujos rumos ainda não conhecemos muito bem.

Esses canais de integração deixaram de ser apenas um meio de informação e entretenimento para se tornarem um caminho de manifestação política. Os gritos e anseios dos cidadãos tomaram forma em corpo digital capazes de derrubarem os muros da ditadura. A influência social e política das novas mídias vão ficando cada vez mais fortes. Uma nova cidadania é o ponto-chave nesse uso das redes sociais, tanto para propaganda partidária de organizações do establishment, quanto para protestos e revoluções.

O que é cultura?

Publicado: janeiro 18, 2013 em Cultura
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Foto: SXC

Cultura é um termo polissêmico, ao contrário do que muitos pensam, ela se estende além do entretenimento. Seu surgimento foi marcado pela aparição do primeiro homem na terra, que começou a alterar a natureza para suprir suas necessidades. “O termo ‘cultura’ em si, surgiu em 1871 como síntese dos termos Kultur e Civilization. Este termo francês que se referia às realizações materiais de um povo; aquele termo alemão que simbolizava os aspectos espirituais de uma comunidade.” (Laraia, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Zahar. Rio de Janeiro, 1986, pg. 25).

Podemos dar uma definição simples do que é cultura, é o meio específico de sobreviver do ser humano, é o domínio humano sobre a natureza. O homem sempre tentou explicar as diferenças da sua raça de acordo com as características genéticas ou geográficas. Eis um erro, pois um exemplo é, se uma criança brasileira muda for criada nos Estados Unidos, ela crescerá pensando em inglês, mesmo não falando uma palavra e absorverá todos os costumes e tradições dos norte-americanos. Portanto, as características biológicas de fato não interferem no comportamento cultural do homem.

Para o antropólogo britânico Edward Tyler, considerado o pai do conceito moderno de cultura, ela é definida de uma forma bem simples. “Cultura é o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade”  [1], ideia essa que vinha em constante crescimento desde os iluministas. A cultura também é o meio ambiente, como na reprodução para a sobrevivência que se dá nesse espaço; alimentação, defesa e proteção porque todos precisam. O que faz com que os homens sobrevivam é a diversidade, porque acabam se adaptando as mudanças do meio ambiente, ao longo do tempo.

 Na alimentação, o homem extrai da natureza tudo que julga essencial para sua sobrevivência, e desenvolve conhecimentos técnicos para poder transformar o que extrair em algo que possa comer, por exemplo, os grãos de arroz e feijão, que ele modifica cozinhando para poder se alimentar da forma correta. Isso é passado de uma geração a outra, que só vem a aperfeiçoar cada vez mais as técnicas já existentes. Também podemos pegar os minerais como exemplos, o petróleo, que é retirado das profundezas dos oceanos é uma matéria-prima transformada pelo homem em vários derivados, como pneus, plásticos, gasolina, querosene, material para fabricar asfalto, entre outros derivados, assim também como o leite da vaca.

Ao contrário de muitos animais, como os ursos polares, que não conseguem se adaptar a ambientes quentes e acabam morrendo fora de seu habitat natural, o homem consegue esse feito, em locais com diversidades geográficas, podendo se adaptar a ambientes muito frios, utilizando os próprios materiais encontrados na natureza, como as fibras, peles e pelos de animais, que viram tecidos para manter seus corpos aquecidos. Usando ferramentas extraorgânicas, equipamentos exteriores ao seu corpo, enquanto outros animais adaptam seus equipamentos biológicos as condições em que vive.

O antropólogo americano Clifford Geertz, descrevia a cultura, como algo que o próprio homem criou inconscientemente para sua sobrevivência. “O conceito de cultura que eu defendo, (…) é essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado.” (Geertz, Clifford. A interpretação das Culturas. Zahar. Rio de Janeiro, 1973, pg.15.) Portanto, o homem age de acordo com os padrões educacionais/ culturais no qual ele foi socializado, e sim, a cultura, é o único fator que determina as diferentes ações dos Homo Sapiens Sapiens.


[1] http://www.grupoescolar.com/materia/cultura:_um_conceito_antropologico.html 01/05/2011

Texto produzido durante o 2º ano do curso de Comunicação Social – Jornalismo (2011), para a disciplina de Teoria da Cultura. 

Gordura que antes era descartável, hoje pode salvar vidas em tratamentos médicos

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Gordura retirada de cirurgias plásticas é rica em células-tronco | Foto: Alexia Raine

O tecido adiposo, conhecido popularmente como gordura, retirado nas cirurgias plásticas de lipoaspiração ganhou um novo rumo. A pesquisa feita pelo Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH) da Universidade São Paulo (USP), comprovou que esse material é rico em células-tronco mesenquimais.

Essa descoberta da ciência diminui a polêmica gerada pelo uso de células-tronco retiradas de embriões humanos. “Estudamos a possibilidade de regenerar tecido muscular de pacientes com doenças neurodegenerativas e com distrofia muscular”, explicou a responsável pela pesquisa do CEGH, Juliana Gomes.

Além de cirurgia de lipoaspiração, o tecido adiposo pode ser encontrado em abdominoplastia, ou até mesmo em cirurgias mais comuns, como a cesariana. Ele também pode ser usado para regeneração de outros tecidos, como o ósseo e reconstrução craniofacial.

O processo para obter o tecido adiposo é feito durante a cirurgia. “O tecido retirado de pacientes submetidos à lipoaspiração é coletado em frascos estéreis e processado para a obtenção das células-tronco, conforme protocolos científicos já estabelecidos”, esclareceu Juliana.

Além do CEGH essa pesquisa é feita em outros laboratórios, como no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pelo professor croata Radovan Borojevic, e também na Stanford University (EUA), pelo cirurgião plástico Michael Longaker.

Em uma experiência feita pelo CEGH, “in vitro”, chegou ao resultado que células-tronco de tecido adiposo conseguem se diferenciar de células musculares, produzindo distrofina. Essa é a proteína ausente nos pacientes que apresentam distrofia de Duchenne, doença muscular que causa a degeneração das células musculares levando à morte.

Os especialistas do centro injetaram essas células-tronco em camundongos com Duchenne. As células conseguiram chegar aos músculos dos animais e fabricar proteínas musculares humanas e melhorar o quadro clínico. “Esse tratamento ainda não foi testado em humanos. Serão necessários alguns anos para se estudar a viabilidade, a eficácia e a segurança dele”, contou Juliana.

As células-tronco retiradas de gordura humana, ainda apresentam a vantagem de serem retiradas do próprio paciente para tratar outros problemas que ele apresente. Além de terem menos chances de rejeição do organismo. Para quem pretende fazer uma dessas cirurgias compatíveis, procure antes pelo CEGH (tel.: (11) 3091-7966 ou genoma@ib.usp.br).

 

Reportagem produzida durante o 3º ano do curso de Comunicação Social – Jornalismo na disciplina de Projeto Experimental Online.

Plantas encontradas em abundância na região da Amazônia têm capacidade de produzir energia para a população local

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O cientista Marcos Buckeridge tem planos de infiltrar árvores dentro dos canaviais para aumentar a produção da cana de açúcar no Brasil | Foto: Anelize Moreira

Segundo o coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Biotanol (INCT do Bioetanol) Marcos Buckeridge, da Universidade de São Paulo (USP), o mata-pasto, o caroço do açaí, o dendê, o sorvo doce, a palmeira, o pinhão manso e o miscanto são possíveis fontes bioenergéticas encontradas em larga escala na região Norte. “Se o Brasil conseguisse promover a Amazônia como uma cultura bioenergética, passaríamos a líder do líder”, afirma o pesquisador.

O mata-pasto é uma planta leguminosa encontrada na Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, nas formações campestres e floresta ombrófila mista. De acordo com Buckeridge, que faz pesquisas com o vegetal, ele possui potencial para suprir as demandas elétricas de pequenas populações da região. É considerado como uma planta daninha, infesta principalmente áreas destinadas a pastagens, beira de estradas e terrenos baldios, às vezes trazendo prejuízos econômicos à pecuária.

A planta é uma espécie que cresce mais rápido que a cana de açúcar, em locais abertos e alagados, produz mais biomassa em menos tempo. Além de ser pesquisado pelo INCT do Bioetanol, também há estudos do mata-pasto no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do apoio das Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte). “O mata-pasto é usado pela Eletronorte, já têm gaseificadores aonde o Linhão [de energia] não chega. Famílias podem pegar pedaços de mata-pasto, queimar, produzir gás e eletricidade. É uma espécie bioenergética brasileira em pequeníssima escala”, explica Buckeridge.

O vegetal, aposta do pesquisador como fonte alternativa, é encontrado em abundância de fevereiro a abril. Mas não existe uma real variação sazonal, a quantidade está relacionada ao alagamento, apesar de crescer tão bem ou até melhor sem o excesso de água. “O mata-pasto poderia ser plantado no barranco do rio que se adequaria. Mesmo com o alagamento continua crescendo, desde que uma folha fique fora da água, ele sobreviverá”, conta Buckeridge. A espécie não se adapta ao sombreado das árvores dentro das florestas, ela vai sendo jogada para a várzea e os entornos, mas é encontrada o ano inteiro.

O sorgo doce é outra opção de cultura bioenergética estudada pelos cientistas. A planta africana é semelhante ao milho e tem tolerância às mudanças climáticas, como em regiões secas, quentes, úmidas e de solo salino. Além de servir como alimento, seu caule é rico em açúcar, que permite fabricar etanol por destilação. O diferencial com a adição da espécie à produção do etanol é que barateia o preço do produto. “O sorgo doce pode ser capaz de aumentar em 17 a 20% a produção de etanol no Brasil”, considera, Buckeridge, que indica que o vegetal pode ser plantado entre as reformas do canavial, já que tem um clico de vida mais curto.

A planta pinhão manso é outra promessa. Pertencente à família das Euphorbiaceae é adaptável a diferentes climas, de fácil cultivo e seu óleo possui componentes para a fabricação de biodiesel. Já existem programas de biocombustíveis que utilizam o pinhão manso, como o “Projeto Jatropha”, em Minas Gerais e o “Biodiesel” da Prefeitura de Cuiabá (MT). “O óleo do pinhão manso tem uma qualidade muito alta e isso é um problema para o biodiesel. Quando ele tem uma quantidade excessiva é usado para fazer cosméticos, o valor agregado é maior”, comenta.

O dendê, espécie de palmeira africana, se dá muito bem na região da Amazônia e tem mais vantagens competitivas no mercado bioenergético do que a soja. Segundo Buckeridge, os estrangeiros dizem que a planta pode causar sérios estragos ao local, podendo invadir a floresta. “Ameaças na Amazônia podem ser oportunidades, depende de como usar. Mas, tem milhares de outras, precisamos de mais Ciência do modo 1 para observar [espécies com potencial para biocombustível], diz.

O Brasil é um dos líderes mundiais na produção de biocombustíveis utilizando plantas. Outras espécies que estão sendo estudadas para a produção desse material sustentável na região da Amazônia são o caroço do açaí, a palmeira e o miscanto. O Inpa e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) pesquisam desde 2004 outras plantas como tucumã, uricuri, murumu, babaçu e ucuúba. A maior parcela de energia renovável vem de hidrelétricas, mas a questão da bioenergia é muito importante para a região devido à escassez energética. “Isso poderia ajudar no desenvolvimento, mas esse não é o mesmo para as outras regiões, não funciona”, explica o especialista do INCT do Bioetanol.

Maior potencial

A cana de açúcar é a principal cultura de biocombustível do país, com o bioetanol. Buckeridge desenvolve uma pesquisa no INCT do Bioetanol sobre como a planta vai responder às mudanças climáticas. “Nós descobrimos algo inusitado, a cana é diferente dos outras gramíneas, ela responde ao gás carbônico aumentando bastante à biomassa”, conta.  O cientista tem planos de infiltrar árvores dentro dos canaviais para aumentar a produção de cana de açúcar, que segundo ele, tornaria o produto brasileiro ainda mais forte no mercado.

Um possível ataque hacker (quando há opção de retrocesso à ação que danifica o meio ambiente), na cana de açúcar seria a diminuição da água. Há testes sendo feitos na USP sobre como a planta reagiria. Mesmo diante desse fator os resultados são positivos, a espécie consegue se sair bem diante à situação.

As plantações de cana de açúcar podem ganhar novos terrenos. Isso porque está em tramite uma nova regra que permite o plantio em regiões do Cerrado e Campos Gerais situados na Amazônia Legal. O Projeto de Lei do Senado (PLS 626/2011) é do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA). Segundo o documento, o plantio deve seguir o Código Florestal Brasileiro, estabelecer condições, critérios e vedações para concessão de crédito rural e agroindustrial para produção da cana, etanol e derivados que a usem e mais doze diretrizes.

Para Buckeridge, o plantio em larga escala nessa região, geralmente úmida, é um problema, porque a planta precisa de um período de seca para que aumente a produção. “Não temos variedades adaptadas a isso, não sei que tipo vai ser plantado lá. Porque se forem usar as variedades que temos no Sudeste, essas espécies não produzirão bem, devido a grande umidade”, afirmou.

O senador Flexa Ribeiro apresentou como argumento que a região da Amazônia, especialmente no Pará possui terras não aproveitadas com aptidão para o plantio da cana e que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento já mencionou a necessidade de expansão do cultivo. Mostrou também que existem regiões ocupadas com pecuárias de baixa produtividade, que poderiam ser aproveitadas pela cana, sem precisar desmatar novas áreas.

Para o colaborador do Ministério do Meio Ambiente, Paulo Kageyama, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ – USP), o conceito da reserva legal é muito claro, permitir que a biodiversidade nativa seja utilizada para equilíbrio da paisagem rural. “Usar a cana [nessas regiões] seria um absurdo da mesma forma que vem sendo proposta a seringueira, mas ela tem ciclo mais longo, cobre mais o solo. Agora a cana, sendo uma cultura quase anual, seria um equívoco para uma área que tem como equilíbrio a propriedade rural”, opina.

Buckeridge comenta que se a cana for plantada na região do Cerrado, local mais seco, pode funcionar bem, mas no Pantanal, Oriente e Sul não vingaria. “Se for plantar em locais degradados é uma decisão do país, se será recuperada aquelas áreas ou usadas para algumas culturas”, diz.

O PLS caminha com velocidade, foi elaborado em outubro, passou pela aprovação do relator Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR) do Senado. Agora, a proposta passará pela Comissão do Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA), onde receberá a última decisão.

Reportagem produzida durante o 6º Curso “Descobrir a Amazônia, Descobrir-se Repórter” do Projeto Repórter do Futuro, da Oboré – Projetos Especiais em Comunicação e Artes, em parceria com o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).